A comunidade de Tugu vive numa aldeia, a nordeste de Jacarta, chamada Tugu. Esta zona de Jacarta é caótica, barulhenta e poluída devido à proximidade do porto de Tanjung Priok. Este porto é o principal do país, é enorme, com os seus cerca de 430 hectares, e tem um tráfego incessante. As estradas desta área de Jacarta têm um trânsito sempre congestionado pelos inúmeros camiões de carga que vão e vêm do porto. Assim, não é muito fácil nem agradável o caminho até Tugu... No entanto, quando se avista o pequeno cemitério da aldeia, já o ritmo cardíaco começa a abrandar. Saindo da estrada confusa e transpondo o portão de entrada, solta-se enfim um suspiro de alívio e de prazer: chegámos a Tugu. O aconchego, a limpeza e o encanto daquele lugarejo são reconfortantes. Esquecemo-nos completamente dos camiões, do monóxido de carbono e do bulício enervante de onde viemos e entramos num mundo à parte, com uma bela igreja branca do século XVII, encimada por telhas vermelhas, ao lado de um cemitério bem cuidado, com uma escola e uma biblioteca (construída com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian), um jardim e muitas árvores de fruto. Continuando mais para Este, mais para dentro, atravessamos o rio Cakung e vamos dar à aldeia propriamente dita: formada por ruelas retas e perpendiculares onde encontramos pequenas moradias com alpendres e vasinhos com flores. Nesta aldeia não vive apenas a comunidade de Tugu, vivem também indonésios de outras partes do arquipélago: das ilhas Celebes, das ilhas Molucas ou doutras regiões de Java.
Há várias versões da origem da comunidade de Tugu. A mais comummente aceite é a de que se trata de uma comunidade de descendentes de mestiços Portugueses e de antigos escravos de Portugueses: um grupo de Mardjikers que habitava a então chamada Batavia (nome por que era conhecida Jacarta nos tempos da administração holandesa).
Para compreender quem eram os Mardjikers, é preciso um pouco mais de História.
Jacarta foi conquistada pelos Holandeses em 1619 e grande parte da sua população não era indígena. Inicialmente, vieram habitantes da costa de Coromandel e da costa do Malabar na Índia, recrutados pelos Holandeses para trabalhar como soldados do exército colonial e como guardas para manter a paz em Batavia, impedindo revoltas locais. Estes homens eram apelidados de Mardjikers (termo do sânscrito atribuído no período Hindu a religiosos ou monges que não pagavam impostos), pois estavam isentos de pagar impostos. Mais tarde, surgiram escravos oriundos das ilhas Molucas, que trabalhavam nos navios ou na construção de fortes, estradas e outros projetos. Por bom comportamento ou pelos bons serviços prestados, estes escravos eram muitas vezes libertos – e passavam a ser chamados Mardjikers também, não porque não pagassem impostos, mas porque eram livres. Finalmente, depois do declínio do império colonial português no Sudeste Asiático em meados do século XVII, chegaram comerciantes, artesãos e aventureiros oriundos de Malaca, Ceilão, Cochim e Calecute – estes estrangeiros, com mais talento, conhecimento e experiência no convívio com os Europeus, tornaram-se funcionários públicos, proprietários de lojas e empregados em entrepostos comerciais. Socialmente, misturavam-se com os Mardjikers. Estas três levas de emigrantes acabaram por se fundir numa comunidade mais ou menos homogénea durante o século XVII. Eram os chamados “Portugueses Negros”. O que é que esta gente – de países e regiões diferentes; de grupos sociais, culturais e profissionais diferentes – tinha em comum? A língua e a religião.
Todas estas pessoas tinham vindo de regiões onde Portugal estivera presente, quer como potência colonizadora quer apenas como agente comercial, tendo sofrido a influência da língua, religião e cultura portuguesas. Todas elas adotaram o Português como língua de comunicação e durante quase dois séculos o Português foi efetivamente a língua de comunicação em Batavia: entre Europeus e nativos de diferentes países e mesmo entre os próprios Asiáticos que vinham dos seus diferentes países para Batávia. Ao contrário do que se imaginaria, a religião dos “Portugueses Negros” não era o catolicismo. Todos eles foram convertidos ao Calvinismo em Batávia, devido às imposições rígidas dos Holandeses – que, no entanto, não conseguiram converter-lhes a língua.
Os Tugu descendem de um grupo de Mardjikers a quem os Holandeses ofereceram um terreno (onde fica a aldeia de Tugu), em 1661, pelos bons serviços prestados à Companhia das Índias Orientais.

Apesar de todas as vicissitudes, este pequenino enclave manteve vivo um crioulo de base lexical portuguesa, o Papiá Tugu, até 1978 – ano em que morreu Jacob Quiko, o então chefe da comunidade e único falante da língua. Atualmente, esse crioulo sobrevive apenas nas letras das canções de Keroncong que eles cantam.
O Keroncong é um tipo de música que nasceu no seio desta comunidade e que é hoje em dia considerado um tipo de música nacional de grande popularidade. A sua origem remonta ao século XVI, quando marinheiros portugueses trouxeram com eles a sua música e instrumentos para o arquipélago indonésio.
No entanto, é também possível sentir uns resquícios desse belíssimo crioulo, muito semelhante àquele falado em Malaca, em algumas expressões quotidianas que ficaram cristalizadas e que os membros da comunidade ainda usam.
Os Tugu são protestantes. Fazem questão de assumir e exibir a sua diferença relativamente aos “outros”. Orgulham-se da sua ascendência portuguesa, gostam de beber vinho, de comer carne de porco, dançam aos pares, falam com brio da sua fisionomia europeia e dos seus narizes longos, riem-se desbragadamente e dão-se a comentários brejeiros (o que contrasta imenso com a cultura javanesa que preza a moderação e a cerimónia) e adoram conviver, cantar e dançar.
Em 2008, a então Leitora do Instituto Camões em Jacarta, Maria Emília Irmler, criou – com a assistência de uma jovem indonésia que aprendera danças tradicionais portuguesas em Macau, a Pipita – um grupo de danças tradicionais portuguesas constituído por membros da comunidade. São os Romeiros de Tugu.
Sara de França Neto de Sousa,
Leitora do Instituto Camões em Jacarta, Indonésia, 2011.
© 2011 Sara França » TEXTO: Sara França » DESIGN: Hugo Carreira